Black Mirror: estamos próximos do futuro da série?

22 jan, 2018
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Influenciado pelo sucesso da série Black Mirror, o portal R7 publicou reportagem sobre como a inteligência artificial é utilizada hoje e como será sua evolução nos próximos anos.

A matéria conta com a participação e análise de Roberto Aran, diretor de Digital Solutions da Resource.

Quando a Revolução Industrial mudou completamente os processos de manufatura com máquinas e automação da produção, o mundo temia que os homens fossem substituídos pelas máquinas e perdessem espaço no mercado de trabalho. O mesmo receio surgiu quando os computadores passaram a se popularizar em escritórios e no ambiente doméstico no fim dos anos 70.

Algumas profissões sumiram, mas outras oportunidades apareceram como alternativa, só que aplicadas a fins tecnológicos. E isso ocorre agora novamente em relação à inteligência artificial, impressoras 3D e robótica.

E a preocupação sobre a evolução dessas áreas aumentou ainda mais com o sucesso da série Black Mirror, da Netflix. Afinal, quão próximos estamos do futuro proposto pelos episódios?

A série exercita, de forma criativa, o risco de como as tecnologias, se levadas ao extremo, poderiam se tornar perigosas para as pessoas.

A preocupação é legítima, mas talvez um pouco exagerada no curto prazo. Em uma conferência sobre o tema realizada pela ONU em 2017, o secretário-geral da Anistia Internacional, Salil Shetty, pediu um marco ético para garantir que a tecnologia seja usada para o bem.

Segundo Cassio Bobsin, CEO da Zenvia, a reflexão é importante, pois gera discussões regulatórias, mas não deve frear a evolução tecnológica como um todo.

— A tecnologia vem evoluindo tão rapidamente que, muitas vezes, é difícil acompanhar o ritmo. As melhores são aquelas que pessoas adotam em suas vidas para resolver problemas ou ter experiências legais.

Hoje, a inteligência artificial está presente no cotidiano de todos, mesmo que de forma imperceptível. Segundo Fernando Teixeira, da Adobe, a personalização na navegação na internet, chatbots (robôs usados para atendimento) e formação de algorítimos são as mais comuns no cotidiano. A tecnologia cada vez mais humanizada permite que os assistentes virtuais apoiem clientes nos processos de vendas, cobranças, suporte técnico, educação e recursos humanos.

— Automação de processos ajudam na previsibilidade de comportamento e isso vai gerar economia no futuro. Tecnologia cria valor e mão de obra qualificada. Iremos sobreviver à inteligência artificial como superamos a revolução industrial.

Uma obsessão histórica

A ideia de que os computadores poderiam servir de interlocutores em conversas com seres humanos não é nova. Foi concebida há mais de 50 anos, pelo matemático britânico Alan Turing (1912-1954).

Naquela época, a tecnologia disponível impediu que essa ponto de vista se concretizasse.

Entretanto, agora que os assistentes virtuais inteligentes, ou AVIs, estão disponíveis no mercado, a vivacidade e a inteligência contida nos diálogos e nas expressões desses programas de computadores não deixam de causar assombro.
Os assistentes virtuais inteligentes são o resultado de avanços em diversas áreas da ciência da computação, que ocorreram nestas ultimas décadas e que se combinaram ao longo do tempo. Marildo Matta, diretor de inteligência artifical da Plusoft, diz que isso causa apreensão apenas em quem desconhece o assunto.

— Certamente a arte inspira a tecnologia, assim como a tecnologia inspira a arte. De maneira geral, somos grandes entusiastas do consumo de novas tecnologias. Entretanto, com a popularização cada vez maior da inteligência artificial, algumas pessoas ficam apreensivas porque as máquinas que eram receptivas em suas funções tornam-se ativas para nos orientar, ou mesmo nos substituir em determinadas funções. O impacto do uso da inteligência artificial nos postos de trabalho já é uma realidade, potencializando a capacidade de trabalho das pessoas ou mesmo criando novos cargos e funções, inexistentes há alguns anos.

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Roberto Leandro Aran, diretor de solução digital da Resource, tem visão semelhante e recorda que não é de hoje que as duas áreas se retroalimentam.

— Esse assunto não é novo, é algo que começou na década de 1950. No entanto, eu também acho que tais séries impactam no desenvolvimento de novas tecnologias. A série Star Trek, por exemplo, criada mais ou menos na década de 1960 apresentava tecnologias que para a época eram irreais, como o telefone celular. A vida imita a arte e a arte imita a vida. Vai ter inspiração baseada nas novidades que o Black Mirror traz, por exemplo. Mas muitas dessas séries nascem pela popularização da inteligência artificial.

Iremos mais longe?

Em Black Mirror, um dos episódios mais parecidos com a realidade é Nosedive (Queda Livre), da terceira temporada (2016), onde a personagem tenta melhor sua avaliação nas redes sociais através da aceitação de seus atos e posts. No entanto, quanto mais ela se esforça, pior o desempenho e suas notas caem. Apesar de o Facebook e o Instagram não terem área para avaliação do comportamento do usuário, a popularidade do perfil na rede já é uma régua que mede isso.

No episódio Be Right Back (Volto Logo), da segunda temporada (2013), um casal espera pelo primeiro filho, quando o marido morre. Com base em seu perfil nas redes sociais e outros materiais audiovisuais, um aplicativo usa uma nova tecnologia capaz de simular a voz e a personalidade dele e, na sequência, o transfere para um corpo sintético. Outros capítulos exploram a mesma premissa, como Black Museum, da última temporada, onde um prisioneiro é ressuscitado em holograma para ser exposto em um museu de criminologia.

Essa, no entanto, já é uma realidade viável. Aplicativos e startups desenvolvem mecanismos nos quais familiares e amigos possam se comunicar com seus entes queridos após a morte. Eter9, criado pelo desenvolvedor de software português Henrique Jorge, é uma rede social que funciona dessa maneira.

Outra ferramenta é Eterni.me, fundada por Marius Ursache. O serviço ainda não foi lançado, mas o plano é permitir que as pessoas interajam com seus conhecidos mortos através dos aplicativos móveis.

Marildo Matta comenta que também teremos essa presença da inteligência artificial em carros e até entregas de produtos e alimentos.

— Existem muitas tecnologias que vão se popularizar e facilitar as nossas vidas nos próximos anos. Um exemplo disso são as impressoras 3D. Assim que tivermos as questões regulatórias resolvidas, veremos drones sobrevoando nossas casas e fazendo entregas das nossas encomendas, comida ou qualquer outro objeto. Em adição, veremos que os automóveis estarão cada vez mais equipados com tecnologias autônomas até chegarem a ser 100% autônomos. A internet das coisas (IoT) estará cada vez mais presente em nossas vidas, assim como mecanismos de automação inteligentes.

A biotecnologia é outra grande aposta para o portfólio das futuras tecnologias que mudarão a nossa forma de viver. Com estímulos de ondas cerebrais, será possível controlar software e movimentar coisas.

Roberto Leandro Aran adianta que, com sensores no cérebro, o usuário vai movimentar a cabeça para um determinado lado e o objeto, no computador, irá se mover.

— Essa tecnologia já é vista em feiras, mas ainda não é comercializada. Porém, nos próximos anos será possível vivenciá-la. Algumas tecnologias vão se beneficiar dessa integração com o ser humano e os estudos de biotecnologia integrados à AI serão revolucionários. A era dos aplicativos em pouco tempo irá acabar e entraremos na era dos assistentes virtuais.

Seres humanos conectados

Cassio Bobsin, por outro lado, acredita que em termos de evolução, os próximos anos serão favoráveis para o desenvolvimento dessas tecnologias em educação e saúde também. Em Black Mirror, a área hospitalar é explorada também no episódio Black Museum, onde um doutor implanta um chip para conseguir sentir os sintomas dos pacientes e aumentar a capacidade de cura.

— Outra tecnologia relevante são as terapias genéticas, que usam suas próprias células para curar doenças, sem risco de rejeição. As pesquisas estão avançando e os primeiros tratamentos devem ser aprovados nos EUA agora em 2018. Os custos ainda são proibitivos, devido à baixa escala, mas o potencial é gigantesco e pode ajudar a curar doenças impossíveis de tratar com os medicamentos atuais.

O magnata Elon Musk, através da empresa Neuralink, procura uma maneira para humanos continuarem competitivos diante da inteligência artificial. E para isso ele propõe um melhor desempenho no uso da tecnologia para o desenvolvimento humano. A ideia é ligar diretamente o cérebro humano com dispositivos tecnológicos, algo que povoa a ficção científica há décadas, e está presente nos episódios Arkangel, USS Callister e White Chrstimas. E isso pode ser realidade em breve.

Inicialmente, o projeto será dedicado a pessoas com deficiências e limitações. Porém, em oito a dez anos, a tecnologia poderia estar disponível para qualquer pessoa.

O objetivo é transformar a inteligência artificial em nuvem numa extensão do cérebro humano. O processo se daria por meio de implantes de pequenos elétrodos no cérebro que poderiam fazer o download dos nossos pensamentos. “Faremos uma fusão mais próxima entre a inteligência biológica e a inteligência artificial. Trata-se de impulsionar a velocidade de conexão entre o cérebro e a versão digital de nós mesmos”, contou confiante para o público da World Government Summit, em Dubai, em 2013.

— Se, por um lado, podemos considerar a tecnologia como algo que substitui os seres humanos, por outro, podemos também considerar que aumenta nossa capacidade de fazer o que precisamos. Pode ser que em futuro distante o ser humano não precise mais trabalhar, mas até lá temos muito trabalho pela frente.

Por Helder Maldonado, do R7

Fonte: Portal R7
https://diversao.r7.com/tv-e-entretenimento/black-mirror-estamos-proximos-do-futuro-mostrado-pela-serie-22012018

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