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Inovação

Reflexões sobre boas práticas imersivas

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Graduei-me em Design Gráfico. Meu trabalho de conclusão de curso foi um tanto diferente. Talvez o esperado fosse criar uma marca, fazer desdobramentos de aplicação, pensar em branding, seguir para o lado da tipografia ou diversas outras formas do extenso conteúdo que absorvi nos quatro anos de curso. Mas, contrariando um pouco a normalidade, minha motivação para esse projeto de finalização foi uma experiência vivenciada nas longas idas e vindas da faculdade.

Eu estudava próximo à estação Jurubatuba, extremo sul de São Paulo. Na época, não havia a linha Amarela do Metrô. Então, junto com uns amigos, íamos de carro e rachávamos a gasolina. Sempre no mesmo caminho. Sempre as mesmas conversas. Somente amenidades.

Nesse fluxo diário, pegávamos a Avenida 23 de Maio, até que algo me chamou a atenção. Por volta das 6h30, na altura do Centro Cultural Vergueiro, do lado direito de quem vai para a zona sul, todos os dias pela manhã eu observava um homem que morava na rua e, com a mesma rotina diária, se penteava em frente a um pequeno espelho pregado numa parede.

Eu comecei a me perguntar como deveria ser sua vida. Mas, a maior das indagações era o motivo pelo qual aquele homem não havia perdido sua dignidade quando, mesmo naquela circunstância, fazia questão de cuidar da aparência.

Não passava pela minha cabeça como deveria ser viver daquela maneira. Mas o que era uma dúvida se tornou meu projeto de conclusão de curso. Victor Hugo, guerreiro das artes, certa vez redigiu de forma veemente: “A melhor das estratégias nasce da decisão derradeira”.

Aquele ano de 2009 foi dedicado inteiramente a esse projeto e quero compartilhar aqui neste post alguns aprendizados muito bacanas sobre esse processo de pesquisa imersiva. Darei atenção à empatia, etnografia e insights.

Empatia

O Dr. Anwarul K. Chowdhury, ex-subsecretário-geral das Nações Unidas, num diálogo com o Dr. Daisaku Ikeda, líder humanista e presidente da SGI (Soka Gakkai Internacional), disse: “Para expandir os elos do entendimento, é importante promover a empatia em seu próprio coração antes de mais nada”.

Decidido a compreender profundamente o que aquelas pessoas viviam, fui ao seu encontro. Pessoas que viviam isoladas, em grupos, as esquecidas, as marginalizadas, e, até mesmo, as que estavam naquela situação por opção.

Jeanne Liedtka e Tim Ogilvie, em “A Magia do Design Thinking“, logo no início do livro tratam do tema empatia e o quanto conseguimos nos colocar no lugar das pessoas para entender como pensam. Não de forma rasa, mas profundamente, desenvolvendo uma compreensão de suas necessidades e vontades, tanto emocionais quanto racionais.

Etnografia

Sobre esse ponto, uma forma pragmática que auxiliou na estruturação do trabalho foi a realização de pesquisa etnográfica. Esta, que tem por definição ser uma metodologia de trabalho proveniente da antropologia, objetiva compreender como as pessoas vivem, com base na imersão em campo, preferencialmente onde os investigados estão.

Quando se fala em etnografia, é comum encontrarmos referências ao antropólogo Bronislaw Malinowski. Ele é autor do clássico Argonautas do Pacífico Ocidental, publicado originalmente em 1922, em que relata, com riqueza de detalhes, o dia a dia dos nativos de ilhas pertencentes ao arquipélago de Trobiand. Interessante pontuar que Malinowski, por meio da observação participante, traz insumos daquelas pessoas a partir de um olhar próximo, que dificilmente alguém teria se apenas pesquisasse a distância.

Albert Einstein dizia que se tivesse uma hora para resolver um problema e sua vida dependesse dessa solução, ele passaria 55 minutos definindo a pergunta certa a se fazer. Essa reflexão é muito interessante, em especial quando a colocamos sob a óptica dos nossos desafios. E olhando para esse projeto, foi em meio às conversas, semiestruturadas, que eu percebi isso.

Voltando ao projeto, destaco que um dos pontos altos foi a aproximação de uma realidade completamente diferente e a importância de mergulhar em um novo contexto. Especialmente a triangulação de ver, viver e falar. Ou seja, observação in loco, o registro das idas a campo, as longas conversas que tive com as pessoas que, de fato, estavam inseridas no problema e os insights que surgiram no processo.

Insights

Durante as idas a campo, tive de quebrar muitos preconceitos sobre o que eu entendia sobre o assunto. Parte da pesquisa não foi só em campo. Houve também a busca por literatura especializada que desse base para alguns direcionadores, e foi fundamental. A partir dessa nitidez no processo de investigação e no cruzamento com os dados que eram coletados, uma série de novas possibilidades surgiu, o que permitiu que alguns insights florescessem.

Insights, é isso o que buscamos em imersões. Eles são estímulos de projetos. São informações que, de alguma maneira, ajudam a ter ideias, mas que não são as ideias em si. Eles são fragmentos de observações que, quando expostos e sobrepostos, geram direções que futuramente poderão se tornar uma ideia, uma solução de um produto, serviço ou abordagem que melhore o que existe hoje.

E o resultado dessas práticas, na busca inicial por entender o desafio daquele cidadão, abriu uma porta para uma pesquisa muito maior do que eu imaginava. Propor algo a si mesmo, nesse sentido, demanda uma dedicação muito intensa do investigador. O resultado final do trabalho para a faculdade? Foi 10. Mas, para mim, significou entender que ao colocar as pessoas no centro, em todos os aspectos, principalmente por saber que se tratava de um assunto sensível, dividiu minha escolha profissional no que tange o mindset e heartset.

Seja olhando para um recorte social ou para um projeto voltado a resultado de negócios, uma boa entrega final será balizada pela qualidade do entendimento do contexto e do quão profundo foi possível mergulhar na vida dos envolvidos.